Dos “mecanismos de defesa” aos mecanismos de sobrevivência
Hector Othon
A expressão “mecanismos de defesa”, consagrada pela tradição psicanalítica, revela mais sobre o espírito de sua época do que sobre a natureza profunda da psique. Defesa contra quem? Contra o quê? A palavra carrega um imaginário de guerra, ameaça e oposição, como se o sujeito estivesse permanentemente sitiado por um inimigo externo ou interno.
Entretanto, quando escutamos com mais atenção as histórias humanas que habitam esses mecanismos, percebemos algo essencial: eles não surgem para atacar, mas para manter a vida possível. Talvez, portanto, seja mais justo nomeá-los como mecanismos de sobrevivência psíquica.
✨ Sobrevivência, Personalidade e o Caminho da Cura
Na origem, não há patologia. Há necessidade.
A criança não cria estratégias porque deseja se esconder do mundo, mas porque deseja pertencer a ele.
Quando o ambiente falha em oferecer acolhimento, segurança emocional ou reconhecimento, a psique responde com criatividade adaptativa. Ela aprende a silenciar para não perder o vínculo. Aprende a agradar para não ser abandonada. Aprende a endurecer para não colapsar. Aprende a racionalizar para não enlouquecer. Aprende a fantasiar para continuar respirando sentido.
Nada disso é erro.
Nada disso é desvio.
Tudo isso é inteligência vital.
O que muitas abordagens chamaram de “defesas” são, na verdade, formas sofisticadas de continuidade do ser. São soluções temporárias encontradas pela alma diante de um mundo que não sabia — ou não podia — amar do modo necessário naquele momento do desenvolvimento.
Personalidade: a solução que se cristaliza
Nosso Tipo básico revela os mecanismos psicológicos por meio dos quais nos afastamos da experiência direta da essência para garantir sobrevivência e pertencimento.
A personalidade se desenvolve sobre as capacidades do temperamento inato (mapa natal), organizando defesas e compensações ali onde fomos feridos na infância. Para atravessar dificuldades precoces, involuntariamente dominamos um repertório limitado de estratégias, autoimagens e comportamentos que nos permitiram enfrentar e sobreviver aos primeiros anos de vida.
Cada um de nós, assim, tornou-se especialista em uma determinada forma de enfrentamento. O que foi solução torna-se identidade. E aquilo que funcionou no passado, quando ativado automática e inconscientemente, transforma-se no núcleo da área disfuncional da personalidade.
A pessoa deseja ser feliz — mesmo quando vive de modo a tornar a felicidade impossível.
À medida que essas estratégias se cristalizam, perdemos contato com nossa experiência viva de nós mesmos. A personalidade passa a ocupar o lugar da identidade, e o “eu” começa a se apoiar cada vez mais em imagens internas, memórias, narrativas e comportamentos aprendidos — e cada vez menos na expressão espontânea da essência.
Essa perda de contato gera uma ansiedade profunda, que se manifesta como as Paixões do Eneagrama: forças emocionais que passam a conduzir a personalidade.
🌀 O engano fundamental
O Eneagrama revela com precisão onde a personalidade nos engana e nos submete a comportamentos autodestrutivos. Isso acontece porque, quando nos identificamos com a personalidade, vivemos menos do que realmente somos.
Grande parte do dia estamos capturados por imagens mentais, reações automáticas, preocupações antecipatórias. Raramente estamos plenamente presentes.
Quando iniciamos um trabalho de consciência, percebemos algo desconcertante: não somos nós que usamos a personalidade — é a personalidade que nos usa. E, por muito tempo, não sabemos como nos libertar.
🌱 O início da cura
Não somos nossa personalidade. Somos seres espirituais em experiência humana. A cura não acontece quando tentamos nos livrar da personalidade, combatê-la ou destruí-la. Ela acontece quando paramos de defendê-la. Nesse momento, ocorre o milagre: entramos em contato com quem somos para além das estratégias.
A personalidade permanece, mas torna-se mais transparente, flexível e a serviço da vida.
A inteligência se refina. A sensibilidade se aprofunda. A verdadeira identidade começa a se revelar.
A pessoa acorda. E, ao acordar, torna-se presente. Nossa luz interior passa a conduzir — e a personalidade deixa de ser prisão para se tornar instrumento.
🔑 Medo, cristalização e sofrimento
Os mecanismos da personalidade são ativados a partir dos medos básicos da infância.
Não sofremos por causa deles em si, mas porque continuam operando em um tempo que já passou. O sofrimento não nasce do mecanismo — nasce de sua cristalização no tempo.
Aquilo que um dia salvou, mais tarde aprisiona. A estratégia que garantiu pertencimento pode gerar isolamento. O gesto que protegeu a sensibilidade pode impedir o encontro.
O corpo continua reagindo como se o perigo ainda estivesse presente, mesmo quando o cenário já mudou.
🌿 Uma nova ética do cuidado
Quando chamamos essas estruturas de “defesas”, tendemos a combatê-las. Quando as reconhecemos como estratégias de sobrevivência, algo essencial se transforma: o sintoma deixa de ser inimigo e passa a ser testemunha de uma história.
Curar não é derrubar defesas. Curar é oferecer um novo campo de segurança.
Um campo onde o corpo possa relaxar. Onde a vigilância não seja mais necessária. Onde a alma possa experimentar que agora há espaço, tempo e presença suficientes para existir sem armaduras.
A verdadeira transformação acontece quando aquilo que foi resposta automática à ameaça se torna escolha consciente de vida. Quando a psique, finalmente acolhida, devolve o comando ao presente e se permite desaprender o excesso de proteção.
Estou contigo 🌿
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